” Quem ama liberta”
Amar ainda não é um sentimento tão simples para nós, apesar de muitas pessoas falarem com tanta facilidade da boca pra fora que até espanta de tão banal a sua pronúncia. Porém muitos componentes desse sentimento ainda estão em construção ou precisam passar por uma ressignificação que virá com o amadurecimento emocional e moral da criatura. A questão é que esse amadurecimento tem sido bem demorado e até mesmo retardado por muitos que ainda não conseguiram se libertar de suas ilusões e crenças provenientes de experiências passadas e reforçadas pela cultura entre outras coisas.
 
Ainda temos muito ruído na comunicação, lixo nos pensamentos e venenos no coração. E para compreender o amor em toda a sua extensão é preciso abrir mão de si mesmo e entrar no universo do outro. Só que isso ainda é confundido com abandonar-se ou deixar de ser quem se é para viver a vida de outra pessoa, projetando-se quem é no outro, ou mais ou menos assim. É tão complexo definir e explicar esse sentimento que mal compreendemos por ainda não termos uma noção exata do que seja amar.
 
Há 2.000 anos Jesus disse “amai-vos uns aos outros”, “amai vossos inimigos”, “fazei ao outro aquilo que gostaríeis que fizesses a você”, “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”…e temos ao longo da história tantas outras mensagens que mal compreendemos o significado e sua aplicação prática na vida. Ainda vemos tanta desigualdade no mundo mas isso não tem importância se nossa família está aquecida, empregada e sem fome. Ainda temos sentimentos de castas, grupos, nações e cor de pele! Ainda separamos pobres, ricos, bem sucedidos (endinheirados e bem posicionados na opinião da massa) que esquecemos das necessidades dos parentes mais afastados, vizinhos, amigos, conhecidos…
 
Da mesma maneira que as redes sociais aproximam, elas afastam e distanciam pessoas desse sentimento que une corações e mentes em objetivos comuns compartilhando jornadas, alegrias e tristezas até que a morte as separe (como se a morte existisse e fosse o fim de tudo). 
 
E quando trazemos esse pensamento para os relacionamentos amorosos, que tem se mostrados desastrosos em sua maioria – nunca se casou tanto e nunca se divorciou tanto também – acabamos trazendo à tona um baú de dificuldades muito por causa da ausência do autoamor, confundido com egoísmo. Já ouvi muitos casais comentarem que seus relacionamentos são verdadeiros carmas, como se isso fosse a verdadeira desgraça. Na verdade Carma é um compromisso nosso conosco mesmo e uma excelente oportunidade de fazer novas e melhores escolhas.
 
“O que nos faz crer que carma é passar pelas agonias de uma provação dolorosa nos relacionamentos é nossa concepção de amor nas relações. As crenças que construímos sobre o amor foram as que mais engessaram nossa verdadeira capacidade de amar.”
 
“Nossa história com relação ao amor é muito mais uma forma de pensar do que um sentimento adquirido. Pensamos que amamos por que sentimos algo que nomeamos como amor quando uma considerável parcela desse sentimento ainda é reflexo do egoísmo, isto é, nós nos amamos no outro.
 
“Essa forma de pensar o amor é uma crença que nos faz acreditar em um sentimento tão poderoso que chega ao ponto de se tornar prepotente. Um amor que seria capaz de extinguir dentro do outro todos os focos de dor, mesmo quando a pessoa amada não deseje ainda se libertar de suas sombrias prisões interiores.”
 

“Amor não é um sentimento cujo propósito seja resolver o que compete ao outro.”

 

“A renovação das nossas crenças sobre o amor liberta o outro e nos liberta de correntes cármicas que nos aprisionam pois acreditamos em uma forma de amar ilusória, fantasiosa, romântica e fictícia que só tem engrossado as fileiras dos magoados, ressentidos e doentes do coração e da alma.
 
Ermance Dufaux, no seu livro Emoções que Curam – Culpa, Raiva e Medo como Forças de Libertação ( e diga-se de passagem, que livro!!!) – noa fala em 6 principais crenças muito comuns em relação à nossa forma ilusória de amar que necessitam de atualização e um repensar à luz de princípios da amorosidade e do autoamor, da gentileza consigo mesmo e com o próximo, proporcionando inclusive a liberdade para todos. São elas:
 
1 – A crença que podemos mudar o outro com nosso amor, mesmo que o outro não queira
 
Isso estabelece uma conexão entre o amor  e a prepotência de achar que nossa verdade é que tem que ser aceitam, de que sabemos o que é melhor para o outro.
 
2 – A crença de que amar é tolerar sem impor limites
 
O que estabelece uma conexão entre amor e sacrifício. Somos como uma árvore que dá boas flores e frutos, que em volta tem um lindo jardim florido. Cabe a nós cercamos o nosso jardim com uma cerca e um portão que abrimos para quem quisermos. De outra forma, se deixarmos o portão aberto todos invadirão nosso jardim e pisarão nas nossas flores. Cabe a nós estabelecermos os limites para quem entra ou quem não deve entrar.
 
3 – A crença de que amar é ser submisso à vontade do outro.
 
Isso cria uma conexão entre amor e autoabandono. Ninguém é dono de ninguém. Todos tem os mesmos direito apesar de papeis diferentes na vida. E quem ama liberta! Cuidar de si mesmo é “amar ao próximo como a si mesmo”.
 
4 – A crença de que amar é prover a pessoa amada de tudo que ela solicita.
 
Com essa crença conectamos amor com o julgamento de acharmos que sabemos do que o outro precisa. Não tem sido assim com muitas mães e pais com seus filhos, para não se sentirem culpados por não dar tempo de qualidade ou uma reação ao tipo de criação que tiveram de seus pais?
 
5 – A crença de que o outro vai se modificar por nossa causa.
 
Conecta amor e expectativas muito elevadas. Cada um só pode dar o que tem e não o que queremos que o outro dê. Expectativas muito altas causam decepções e frustrações muito altas também. É preciso baixar as expectativas e aceitar o outro como ele é e com seus desejos de crescimento e seus recursos emocionais naquele momento. Precisamos lembrar que a natureza não dá saltos e levamos 3,8 bilhões de anos para chegar ao que somos hoje. Fica difícil querer que outra pessoa mude uma estrutura milenar e enraizada em memórias, experiências e crenças em apenas alguns dias, meses ou anos.
 
6 – A crença de que somente com o amor do outro podemos ser felizes.
 
Isso é uma conexão entre amor e carência. E falando em carências são enormes e muitas as carências que trazemos e cultivamos ao longo dessa e de outras existências (pra quem acredita) e projetamos em nossos relacionamentos.”
 
Pensar que já sabemos amar é uma das expressões sombrias do nosso egoísmo. A renovação de nossas crenças é a solução para essa “enfermidade moral” que um dia nos levará à condição do amor incondicional ao próximo, ou seja, aquele que está ao meu lado e no momento presente, não importando quem seja, qual sua maneira de falar, como se  veste e onde mora, como se comporta e quanto tem no bolso. Entender o amor e os relacionamentos de uma forma saudável e que nos curem de nós mesmos e nos permita nos libertar de tudo que é ilusório e libertar os outros também é nos transformar em melhores seres humanos. E como toda mudança, é necessário mente e coração abertos, autoconhecimento, paciência consigo mesmo e autoamor. 
 
É colocando um tijolo sobre o outro que, aos poucos, a casa vai tomando forma.
 
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